Yendoo Jung

É muito bom encontrar no baú coisas que você já amou um dia e nunca mais pensou a respeito. Dá uma sensação nova de descoberta, misturada com uma sensação de "olha como eu era esperta". (Claro que não vou mencionar aqui as coisas terríveis que a gente também encontra e que deixam aquela sensação de "como eu pude, meu Deus?")
Tentando organizar meus bookmarks, re-encontrei Yeondoo Jung, um artista sul-coreano que faz um trabalho muito interessante que envolve fotografia, filmagem, colagem, direção de arte e um pouco de ilusionismo às avessas.
Wonderland é o nome da exposição dessas fotos que selecionei aqui, e é antiga, de 2005. Nesse projeto, Jung selecionou alguns desenhos de crianças e re-encenou o que estava desenhado, brincando com as proporções esquisitas, os erros e as cores. Para isso, ele mandou fazer roupas deformadas, props malucos, misturou cenários com locações e painéis e muito mais.
Para quem gostar, vale a pena ver o vídeo do Creators Project sobre Jung. E acompanhar outros projetos dele, como o incrível Handmade Memories em que em Split Screen, ele mostra um idoso contando alguma memória remota enquanto ele reencena a história no outro canto da tela. É lindo ver o processo de construção e desconstrução, de verdades e mentiras e de histórias verídicas e memórias alteradas. Divirtam-se.

PS: Sei que dei uma sumida, mas as mães que trabalham e não têm babá, nem funcionários em casa, sabem que às vezes a faxina, o roteiro, o jantar, o blog, o livro ou para a construção de cidades de Lego, se alternam no vai-e-vem das escalas de prioridades. ; ) Mas eu já estava com saudades daqui e vou tentar voltar a cumprir minha meta de 3 postagens por semana: um livro, um vídeo e algum outro link bacana.




O Livro do Foguete, de Peter Newell




Peter Newell foi um artista/ poeta/ ilustrador americano (1862-1924) que trabalhou com Mark Twain e Lewis Carroll. Também lançou alguns livros infantis muito legais, nos quais os poemas e o design vão bem de mãos dadas, um a serviço do outro. O livro do Foguete é um exemplo belíssimo disso. 
Para contar a história de um morteiro que é aceso no porão atravessando todos os andares de um edifício, Newell deixou um buraco, uma elipse real, vazada, no meio do papel. E a cada nova página, em um novo andar, um pequeno núcleo de personagens se relaciona com a passagem do pequeno foguete.







































































A edição brasileira da Cosac Naify é brilhante. A encadernação é linda e a tradução do poema pelo Ivo Barroso é um primor. A capa é rígida como as dos livros de figuras de bebês e o livro tem um tamanho um pouco maior que o formato standard, muito bom de ler.

Por causa do senso de humor afiado e da idéia/ design inteligentes, o livro tem um charme todo especial e parece antigo e moderno ao mesmo tempo.

Ah, e quem quiser se aventurar mais por essa estética e ver as ilustrações do Newell para Alice no País das Maravilhas, clica aqui.



Le Silence sous L'écorche, Joanna Lurie





Le silence sous l'ecorce é um curta-metragem da francesa Joanna Lurie. O filme é bastante abstrato e simples, uma poesia visual, com cores e colagens e texturas. As duas criaturas da história,  moram dentro de árvores e quando acordam experimentam coisas em um processo de aprendizado e amadurecimento. 



Indicado ao Oscar de curta de animação em 2011, tem uma estranheza delicada e uma relação de magia com a natureza muito interessantes.

O Blog da Joanna está aqui, cheio de links para filmes e coisas legais, mas é voltado para os adultos e os que gostam de ilustração e animação. 

Jan Vermeer Coloring Book






O livro se chama livro de colorir do Jan Vermeer (Jan Vermeer Coloring Book, da Prestel), mas é mais do que um livro de colorir. A proposta do livro é se inspirar em obras de Vermeer, ou fragmentos da obra e usar a imaginação para completar, fazer versões e usar a imaginação de diversas formas diferentes, desenhando e colorindo e até usando colagens ou o que mais você achar legal.
Uma das atividades é desenhar sua irmã ou sua mãe em uma moldura que fica bem do lado de uma cópia da Moça do Brinco de Pérola. A inspiração normalmente é mais intuitiva e o livro não vem com  muitas regras, apenas sugestões (e, puxa, sim, estão em inglês). É como se ao ver uma pintura dessas, uma motivação aparecesse para tentar brincar mais com luz e sombra e brilho.
Sei que muitos pais se sentem intimidados por trazer arte clássica para as crianças, mas se você assistir o vídeo abaixo, você vai ver a segurança de uma menina de 8 anos desenhando sua versão do retrato da Moça do Brinco de Pérola. A minha filha de 3 anos, não tenta ir tão longe, mas rabisca sem medo e já começa a identificar alguns padrões e idéias.



Hoje existem vários livros de colorir e de adesivos baseados em obras de arte e artistas famosos e tento sempre ter alguns em casa (ou mesmo baixar folhas de graça da internet). As crianças adoram pintar, colorir e adesivar. E que sorte, poder se inspirar em coisas belas, historicamente relevantes e com camadas mais interessantes de estética e técnica. Claro que compro Backyardigans e fadas, como todas as mães, e não acho que seja saudável exaurir as crianças com coisas que elas ainda não conseguem enxergar. Mas sinto que quando trazemos esses elementos com delicadeza, eles se destacam no meio do caos que é a superpopulacão de bonecos e televisão e merchandising e ufa, tudo aquilo.  



A National Gallery também tem um joguinho de casa de bonecas online inspirado nos artistas holandeses, para você customizar uma casa de acordo com obras de pintores famosos e com a arquitetura e época adequadas. Uma saída mais interessante para as crianças que gostam de gastar tempo online.

Adventures of a Cardboard Box, Studio Canoe

Aqui, a gente junta caixa de sapato, pinta, cola e recorta. Mas nem precisa. Basta ter imaginação.



































Seu filho estava entediado? Não está mais!

Olha que curta-metragem fantástico que mostras as aventuras de umas crianças com uma caixa de papelão. Delícia-delícia.


A Rainha das Cores, Jutta Bauer







Os livros de Jutta Bauer são todos lindos e de uma simplicidade mais linda ainda. A Rainha das Cores é sobre as cores e sobre como é difícil não ceder ao temperamento das cores e da tendência incontrolável delas se misturarem. Quando tudo se mistura e vira um rabisco enlouquecidamente cinza, a rainha precisa descobrir como se relacionar com as cores de uma maneira mais equilibrada.  

Jutta é uma artista alemã que ilustra e desenha suas histórias. Como a maioria dos ilustradores que escrevem suas próprias histórias, ela não consegue separar uma coisa da outra. A expressão artística e a tentativa de falar e educar as crianças juntas em uma forma ou outra ou nas duas ao memso tempo. A entrevista abaixo (em inglês com legenda em espanhol) é muito rica e esclarecedora para aqueles como eu que gostam de ver de onde vem as emoções e as histórias que vão parar na mão dos nossos filhos.




Livros assim, de adultos inteligentes, falando sobre sentimentos reais para as crianças, usando abstrações e símbolos de uma maneira tão precisa, sempre me cativam e passo a achar que são livros que tão interessantes para as crianças quanto para os adultos.

Aqui, o mundo é de cores, diversão e caos. Que lindo, Jutta.






Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak


Vamos começar a bagunça geral!






Onde Vivem os Monstros é um clássico da literatura infantil. Foi lançado em 1963 e é amado e relevante até hoje. O tema do livro, o conflito entre mãe e filho, criança e adulto, se aprofunda em emoções densas, fortes e até um pouco sombrias. Só que tudo isso em uma aventura lindamente ilustrada e com motivações bastante infantis como a raiva, a decepção, a amizade e a vontade de fazer bagunça. São situações totalmente relevantes para as crianças, mesmo as pequeninas, mas vai um pouquinho além e tem algumas camadas mais profundas, que fazem com que os adultos se conectem tanto quanto as crianças. 
Na história, Max é um menino que faz uma bagunça terrível em casa com a sua mãe e é mandado para o quarto sem jantar. Ele sente raiva, muita raiva, mas o fato é que além do conflito com a sua mãe, ele também entra em conflito com a própria frustração. E em vez de continuar a se comportar mal, Max se liberta através de uma grande fantasia, em que seu quarto se transforma em uma floresta de onde ele navega para uma terra de monstros. Depois de ser coroado o mais terrível de todos os monstros, Max começa a rever seus sentimentos e a balança entre o conforto e o medo, os novos amigos e a saudade de casa e de alguém que te ame de verdade.



Em 2009, Spike Jonze lançou uma versão do filme para o cinema. Com adaptação de Dave Eggers (que publicou sua adaptação no livro da foto abaixo), o filme é um lindo panorama sobre o medo, a amizade e a solidão. Os monstros são esteticamente fantásticos e muito comoventes. Mas alerto que é um filme lento, que apela um pouco para essa camada mais adulta da história e menos para a aventura colorida e ágil que as crianças estão acostumadas. Mas será que também não é importante insistir em um contraponto? Em fazer as crianças admirarem as coisas mais reflexivas? Sou fã do Dave Eggers, editor e roteirista deste filme e adorei o livro adaptado, mas é sem figuras, para crianças um pouco maiores.

The Wild Things, adaptação do livro para o cinema virou livro.
Como o filme é um clássico, a gente encontra milhares de referências pela internet. Desde festas temáticas, máscaras para comprar, adesivos, sapatos e até dicas de como fazer comida inspirada no livro.

Um projeto que eu particularmente adoro, inspirado no Onde Vivem os Monstros é o Terrible Yellow Eyes, um site que entre 2009 e 2010 reuniu uma coleção de ilustrações e obras de arte inspiradas pelo livro. Segundo o criador do site, o livro é tão poderoso que ele sempre ficou sem palavras para descrevê-lo e por isso começou a criar ilustrações e encomendar umas de outros artistas e juntar todas em um blog. Uma homenagem super bacana que vale a pena ver.